Eu era feliz e sabia.

Saudade dos tempos do Jardim de Infância. Sim, saudosimo mesmo, sem dó. Aquilo que era vida. Reli aquele texto do Robert Fulghum “Tudo que eu preciso saber, aprendi no Jardim de Infância”. Fantástico, é isso mesmo que eu acho e me lembro todas as vezes que alguém fura a minha frente na fila do self-service. Naquela época, a de criança era muito tranquila. Minha mãe me deixava na escolinha, ia trabalhar e no final da tarde lá estava ela de novo depois de um dia longo de trabalho a me esperar no portão. Eu gostava. Ninguém era maior que eu, coisa que nunca mais vai acontecer na minha vida. Todo mundo tampa. Tinha o lanche e a gente podia comer de tudo, sem culpa. Eu podia rolar no tanque de areia que ninguém me pintava de louca. A gente brincava de massinha, argila, pintura, desenho, de cortar papel. E nem rolava uma pressão da professora do tipo: “Olha, você precisa cortar esse papel para ontem”. E nada de ter que refazer o bonequinho de argila só porque alguém não tinha gostado do jeito dele. Eramos todos artistas respeitados. Cada um no seu tempo, livres. Ouvíamos histórias e nem por isso estavamos “perdendo tempo”. Brincávamos de teatrinho, pega-pega, esconde-esconde, estátua, polícia e ladrão, corre-cotia, passa-anél e tantos outros. Podia ser egoísta no último que o máximo que ia acontecer era a professora chamar a atenção, dizer que eu não podia fazer daquele jeito, que eu deveria dividir as coisas, pedir desculpas e tudo bem. Era uma época boa. O primeiro amor, tão inocente que apenas brincar junto bastava. Nada de discutir a relação, nada de ciúmes, nada de cobranças, nem telefonemas. Era só o tal do gostar limpo, sem mais. No máximo saíam uns tapas e estava tudo resolvido. Naquela época eu tinha mais amigos. Era tudo e todo muito mais verdadeiro. Se você gostava ía lá e abraçava o outro com a maior naturalidade e sem o menor pudor. Era sincero. Assim como sincero era também o contrário. O mais ofendido podia ir lá, dar uma mordida bem dada e deixar todos os dentes de leite no braço do colega. Claro que depois viria a professora dar bronca ou colocar de castigo. E você então podia chorar com a maior tristeza do mundo, bem sofrido, como se lhe tivessem levado a própria mãe. Mas era tudo mais verdadeiro. Ninguém precisava fingir que estava satisfeito e passar aquele sorriso mentiroso na cara. Ninguém engolia sapos, enfrentava leões, a não ser de brincadeira ou na imaginação. Esse foi, sem sombra de dúvida, o tempo mais feliz da minha vida. Até hoje lembro da escola. Lembro do pátio, lembro das salas, lembro da pia comprida cheia de torneiras pra gente escovar os dentes, lembro da Dé, do Irã, da Penina, da Leda e da querida Estela. Lembro do tanque de areia e do dia em que a criançada toda resolveu cavar uma piscina bem ali. Se estivéssemos com sede, era só pedir água que alguém trazia. Se sentíssemos fome, talvez tivessemos só que esperar pela hora do recreio. Se o problema fosse sono, poderiamos dar uma dormidinha sem ninguém achar vagabundagem. E até mesmo se não desse tempo de chegar ao banheiro e acontecesse uma coisa terrível, alguém ia te entender. Lembro que tudo que eu tinha que fazer era curtir a vida. Com sossego, tranquilidade e sem preocupações. Ao contrário do que se diz, eu era feliz e sabia. Um tempo que, desde então, passo e vou passar o resto da vida trabalhando e lutando para ter de volta, mesmo que uma pessoa qualquer, em um momento qualquer, com um julgamento qualquer, venha me acusar de infantil. Aliás, coisa que eu vou adorar ouvir.

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