Um Betta Chamado Francisco

Outubro 1, 2009 por voglioparlare

Tenho um betta vermelho, ganhei do meu namo. Já faz algum tempo, mas só há pouco resolvi que ele se chamaria Francisco. Demorei para dar o nome porque queria mesmo era um cachorro, mas como ainda não posso ter, resolvi que um peixe estava ok. De cachorro pra peixe é bem diferente, né?

Olhava pra ele, alimentava, trocava a água, olhava mais um pouco. Depois de um tempo passei a falar com ele também, humm, sinal de que as coisas estavam mudando. E não vou mencionar que cantei pra ele, porque aí a coisa começa a ficar um tanto ridícula.

Foi quando olhei pra ele e veio nome: Francisco! Sim, já era amor. As vezes coloco um espelho pra ele ficar louco de raiva e tentar matar o pobre reflexo. Mas o que o Francisco mais gosta de fazer é tentar passar por lugares apertados. Ele tenta, tenta, dá mais espaço, vem nadando e com impulso ele fnalmente passa. E por horas repete essa passada até que percebe que pode passar pelo mesmo lugar do lado oposto. E então repete tudo de novo, mil vezes. Sabendo disso, comecei a colocar as coisas no aquário de forma que ele tenha muitos lugares e frestas para passar. Ele adora. Eu também.

As vezes ficava com dó de ver o Francisco sozinho, parecendo meio borocochô e pensava “mas coitado, o cara deve estar sentindo a maior solidão”. Mas não podia fazer nada, o cara é brigão, assim como todos os machos bettas. Que tal um amor? Ninguém pode viver sem e foi aí que resolvi que ele precisava de uma companheira. E enfim, hoje ela chegou. Aêêêê Chiquinho!!

Toda branquinha, meio prateada, sei lá eu como se define essa cor. O fato é que ela reflete as cores que estão por perto. Linda!! Ele já está de olho, mas por enquanto estão em aquários separados até que eu tenha mais conhecimento e tempo para uní-los.

Puxa, estou ansiosa pelos próximos capítulos. Até lá!

O homem do tempo.

Abril 2, 2009 por voglioparlare

Tem um moço aqui no prédio que trabalho que gosta muito de falar sobre o tempo. Tão metereologista que você não consegue falar de outro assunto com ele.

- Bom dia moço, td bem?

- Bem, é. Hoje o tempo tá bom né?

- É né, parece que sim.

- Mas vai fazer calor no almoço.

E é sempre assim. O tempo de você passar por ele e trocar umas palavras. Mas ao contrário do tempo elas nunca mudam, são sempre climáticas.

O papo maior sobre o tempo acontece quendo se pega o elevador com ele. Se está calor ele diz que está quente. Se está frio, frio. E a conversa sempre termina mais ou menos assim:

- É, se ficar assim no fim de semana né… Aí tá bom (ou aí não tá bom).

O fato é que ele gosta muito de falar sobre o tempo. Primeiro eu achava que era só comigo. Depois descobri que não, que é com todo mundo.

E daí, claro, veio a grande missão. Conseguir fazê-lo falar sobre outro assunto que não fosse o clima. Foi quando topei com o moço no elevador.

- Oi moço, tudo bem?

- Tudo, hoje tá bom né?

E antes que ele continuasse e enquanto o elevador ia subindo desandei a falar.

(Do térreo ao primeiro andar)

- Você trabalha aqui há muito tempo? Porque pô, você deve conhecer todo mundo né? Tá sempre por aqui.

(Do segundo ao terceiro andar)

- Deve conhecer umas histórias ótimas de elevador. Tem alguma história engraçada? – e o moço quieto.

(Do terceiro pro quarto)

- Fala a verdade, você já ficou preso aqui? Tem medo de elevador? Não, porque esse elevador vira e mexe pára né? Você sabe. – o moço quieto.

(Do quarto pro quinto)

- E as pessoas, fofocam muito no elevador? Você deve ouvir falar de vários casos, não?

- Sei não moça. Só sei que hoje chove.

(Do quinto pro sexto)

– silêncio sepulcral –

Abriu a porta e eu desci. E claro, minha missão foi pelo ralo.

Anjos que guardam

Março 30, 2009 por voglioparlare

Você já foi ao Cemitério da Consolação? Se não devia ir. Tem muita arte, muitos “anjos que guardam”, muita coisa bonita, muita gente famosa e muito sossego até para quem ainda não foi, se é que você me entende.

Pra quem quiser conferir, coloquei mais no meu Flickr: outras fotos

“O cemitério mais antigo da cidade, o da Consolação, aberto em 1858, é o que reúne o maior número de jazigos de figuras conhecidas. Ali, há cerca de 200 túmulos de valor histórico, com nomes como o da pintora modernista Tarsila do Amaral, o do presidente da República Washington Luís e o da marquesa de Santos. Lá e em outros cemitérios, são muito procuradas as sepulturas dos chamados milagreiros – mortos não reconhecidos pela Igreja Católica como santos mas que conquistaram uma legião de devotos. Um exemplo é Bento do Portão, enterrado em Santo Amaro. Em vida, ele foi mendigo no bairro e, morto, passou a receber pedidos e orações. Até mesmo o escritor Monteiro Lobato, que era ateu, tem sido invocado por quem acredita que ele possa atender a pedidos de ajuda. Volta e meia são deixados bilhetes de agradecimento sobre sua lápide no Cemitério da Consolação.”

(http://vejasaopaulo.abril.com.br/revista/vejasp/edicoes/1980/m0115236.html)


CONSOLAÇÃO

Rua da Consolação, 1660, Consolação

Antoninho da Rocha Marmo – milagreiro (1918-1930)
Conde Francisco Matarazzo – industrial (1854-1937)
Guiomar Novaes – pianista (1896-1979)
Mário de Andrade – escritor (1893-1945)
Marquesa de Santos – amante de dom Pedro I (1797-1867)
Monteiro Lobato – escritor (1882-1948)
Oswald de Andrade – escritor (1890-1954)
Tarsila do Amaral – pintora (1886-1973)
Washington Luís – presidente da República (1869-1957)

Eu era feliz e sabia.

Março 19, 2009 por voglioparlare

Saudade dos tempos do Jardim de Infância. Sim, saudosimo mesmo, sem dó. Aquilo que era vida. Reli aquele texto do Robert Fulghum “Tudo que eu preciso saber, aprendi no Jardim de Infância”. Fantástico, é isso mesmo que eu acho e me lembro todas as vezes que alguém fura a minha frente na fila do self-service. Naquela época, a de criança era muito tranquila. Minha mãe me deixava na escolinha, ia trabalhar e no final da tarde lá estava ela de novo depois de um dia longo de trabalho a me esperar no portão. Eu gostava. Ninguém era maior que eu, coisa que nunca mais vai acontecer na minha vida. Todo mundo tampa. Tinha o lanche e a gente podia comer de tudo, sem culpa. Eu podia rolar no tanque de areia que ninguém me pintava de louca. A gente brincava de massinha, argila, pintura, desenho, de cortar papel. E nem rolava uma pressão da professora do tipo: “Olha, você precisa cortar esse papel para ontem”. E nada de ter que refazer o bonequinho de argila só porque alguém não tinha gostado do jeito dele. Eramos todos artistas respeitados. Cada um no seu tempo, livres. Ouvíamos histórias e nem por isso estavamos “perdendo tempo”. Brincávamos de teatrinho, pega-pega, esconde-esconde, estátua, polícia e ladrão, corre-cotia, passa-anél e tantos outros. Podia ser egoísta no último que o máximo que ia acontecer era a professora chamar a atenção, dizer que eu não podia fazer daquele jeito, que eu deveria dividir as coisas, pedir desculpas e tudo bem. Era uma época boa. O primeiro amor, tão inocente que apenas brincar junto bastava. Nada de discutir a relação, nada de ciúmes, nada de cobranças, nem telefonemas. Era só o tal do gostar limpo, sem mais. No máximo saíam uns tapas e estava tudo resolvido. Naquela época eu tinha mais amigos. Era tudo e todo muito mais verdadeiro. Se você gostava ía lá e abraçava o outro com a maior naturalidade e sem o menor pudor. Era sincero. Assim como sincero era também o contrário. O mais ofendido podia ir lá, dar uma mordida bem dada e deixar todos os dentes de leite no braço do colega. Claro que depois viria a professora dar bronca ou colocar de castigo. E você então podia chorar com a maior tristeza do mundo, bem sofrido, como se lhe tivessem levado a própria mãe. Mas era tudo mais verdadeiro. Ninguém precisava fingir que estava satisfeito e passar aquele sorriso mentiroso na cara. Ninguém engolia sapos, enfrentava leões, a não ser de brincadeira ou na imaginação. Esse foi, sem sombra de dúvida, o tempo mais feliz da minha vida. Até hoje lembro da escola. Lembro do pátio, lembro das salas, lembro da pia comprida cheia de torneiras pra gente escovar os dentes, lembro da Dé, do Irã, da Penina, da Leda e da querida Estela. Lembro do tanque de areia e do dia em que a criançada toda resolveu cavar uma piscina bem ali. Se estivéssemos com sede, era só pedir água que alguém trazia. Se sentíssemos fome, talvez tivessemos só que esperar pela hora do recreio. Se o problema fosse sono, poderiamos dar uma dormidinha sem ninguém achar vagabundagem. E até mesmo se não desse tempo de chegar ao banheiro e acontecesse uma coisa terrível, alguém ia te entender. Lembro que tudo que eu tinha que fazer era curtir a vida. Com sossego, tranquilidade e sem preocupações. Ao contrário do que se diz, eu era feliz e sabia. Um tempo que, desde então, passo e vou passar o resto da vida trabalhando e lutando para ter de volta, mesmo que uma pessoa qualquer, em um momento qualquer, com um julgamento qualquer, venha me acusar de infantil. Aliás, coisa que eu vou adorar ouvir.